Tragédia no Nepal e Tibete: mais de 380 mortos e três portugueses desaparecidos
As autoridades do Nepal elevaram o número de mortos para pelo menos 389 após uma grande enxurrada causada pelo colapso de um glaciar na fronteira com o Tibete. O Ministério dos Negócios Estrangeiros confirmou a presença de três cidadãos portugueses entre os desaparecidos, enquanto as operações de busca enfrentam condições extremas de lama e destruição de infraestrutura.
As autoridades do Nepal atualizaram, nesta quinta-feira, 27 de agosto, o balanço da tragédia que atingiu a região fronteiriça com o Tibete, elevando o número de mortos confirmados para pelo menos 389. Do lado tibetano, foram recuperados mais três corpos. O cenário humanitário permanece crítico, com cerca de mil pessoas dadas como desaparecidas entre os dois lados da fronteira. Entre as vítimas e os desabrigados, encontram-se três cidadãos portugueses, conforme confirmado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) português.
A situação dos nacionais portugueses sofreu uma atualização dinâmica ao longo do dia. No início da tarde, o MNE havia informado que quatro cidadãos estavam desaparecidos, dois a mais do que os dados conhecidos na véspera. Poucos minutos depois, contudo, o ministério divulgou "boas notícias": um dos indivíduos anteriormente classificados como desaparecido fora localizado na fronteira com o Tibete, aparentemente distante da zona de impacto imediato. O cidadão encontra-se em segurança e com boa saúde. Com esta confirmação, o balanço oficial português ajustou-se para três portugueses desaparecidos: um homem e duas mulheres.
O Ministério das Relações Exteriores sublinhou que os números continuam provisórios devido à vastidão da área afetada e ao elevado número de pessoas que permanecem sem contacto com as suas famílias. As operações de busca e salvamento prosseguem num cenário de extrema dificuldade técnica e logística. Estradas destruídas, pontes arrastadas pela força da corrente, falhas generalizadas nas comunicações e a ameaça constante de novos deslizamentos de terra condicionam severamente o acesso às zonas mais atingidas.
A polícia nepalesa detalhou a distribuição geográfica das vítimas recuperadas até ao momento. A maioria dos corpos, totalizando 137, foi encontrada no distrito de Chitwan. Outros distritos também registaram números significativos: Nawalparasi contabilizou 87 corpos (com dados adicionais indicando 27 em outra referência do mesmo distrito), Dhading registou 33, Gorkha 32, Nuwakot e Tanahun 28 cada um, e Rasuwa 17. A tragédia, desencadeada na manhã de quarta-feira, foi provocada pelo colapso súbito de um glaciar nos Himalaias.
Os primeiros relatos sobre a origem do desastre apontavam para um sismo como causa provável. No entanto, o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) esclareceu posteriormente que o fenómeno correspondeu a um "colapso glaciar". O impacto da massa de gelo e detritos no fundo do vale foi tão intenso que registou uma magnitude de 5,2 na escala sísmica. Uma análise preliminar do International Centre for Integrated Mountain Development (ICIMOD), organização intergovernamental, aponta para a possibilidade de uma "avalanche de gelo e rocha" originada numa zona de grande altitude. A queda de uma enorme quantidade de gelo e detritos para o Lende Khola, afluente do rio Bhote Koshi, provocou uma subida abrupta do caudal. Segundo o organismo, os níveis da água nos rios a jusante subiram entre sete e nove metros em apenas 30 minutos, destruindo ou danificando várias estações de monitorização.
A força da cheia surpreendeu comunidades, trabalhadores e viajantes junto à fronteira entre o Nepal e a China. Imagens divulgadas nas redes sociais mostram uma massa de água, lama e rocha avançando pelo vale e atingindo um posto fronteiriço em Gyirong. Casas, estradas, pontes e infraestruturas de energia foram destruídas ou arrastadas pela corrente. Simon Cook, especialista em glaciares da Universidade de Dundee, indicou à BBC que a sua equipa detetou o colapso da parte inferior de um glaciar no Nepal, perto do pico Langtang Lirung, a cerca de 15 quilómetros do local atingido pelas cheias.
Entre as pessoas que permanecem sem contacto estão dezenas de peregrinos hindus que se encontravam na região durante uma viagem ao monte Kailash, no Tibete, um local sagrado para hindus e budistas tibetanos. O líder espiritual hindu Sadhguru, Jagadish Vasudev, afirmou que 80 peregrinos estavam no posto de imigração da fronteira Nepal-China quando a cheia atingiu o edifício. Entre eles encontrava-se um cidadão português. "Literalmente, todo o grupo estava no edifício", escreveu Sadhguru nas redes sociais, classificando o evento como um "acontecimento terrível". O grupo incluía cidadãos dos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Reino Unido, Alemanha, França, Nepal, Países Baixos, Nova Zelândia, Espanha, Singapura, Finlândia, Hungria, Israel, Lituânia, Filipinas, Rússia, África do Sul e Portugal.
A comunidade internacional reagiu à dimensão da catástrofe. O Dalai Lama lamentou a tragédia, orando por aqueles que perderam a vida e oferecendo solidariedade e condolências aos familiares enlutados. O líder espiritual tibetano recordou que a região já foi atingida por outras calamidades e considerou que estes acontecimentos podem ser "sintomas de uma causa mais profunda", seja ela as alterações climáticas ou outros fatores.
A questão do impacto das alterações climáticas no desastre tem sido amplamente debatida por cientistas. Embora não afirmem que seja possível atribuir este episódio exclusivamente às mudanças climáticas, os especialistas alertam para uma tendência mais ampla. Um relatório do ICIMOD divulgado este ano concluiu que os glaciares da região Hindu Kush-Himalaia estão a perder gelo ao dobro do ritmo registado desde 2000, aumentando a exposição a fenómenos como inundações e deslizamentos.
Mohd Farooq Azam, especialista do ICIMOD citado pela BBC, afirmou que o aumento da frequência de perigos associados à criosfera — as zonas congeladas da Terra — "está a tornar-se mais visível do que nunca". O ritmo de transformação é tão rápido que, segundo o especialista, "os esforços atuais estão a ter dificuldade em acompanhar". Simon Cook sublinhou que, embora seja difícil determinar se um acontecimento individual é diretamente causado pelas alterações climáticas, o padrão observado é significativo. Com um planeta mais quente, prevê-se o encolhimento dos glaciares, mais fusão de neve e o degelo do permafrost, o solo permanentemente congelado que ajuda a estabilizar algumas encostas.
O resultado deste aquecimento pode ser uma maior ocorrência de "deslizamentos, fluxos de detritos, água de degelo dos glaciais, rupturas de lagos e colapsos de glaciares", à medida que o aquecimento do clima torna estes ambientes de alta montanha mais instáveis.
No Tibete, as condições no terreno continuam particularmente difíceis. O deslizamento de terras junto à passagem fronteiriça de Gyirong Port deixou algumas zonas cobertas por mais de 1,5 metros de lama. Todas as estradas de acesso ao posto fronteiriço ficaram danificadas e as comunicações foram interrompidas. Além disso, a previsão de chuva nos próximos dias faz temer novos deslizamentos e colapsos secundários, complicando ainda mais o trabalho das equipas de emergência.
David Fisher, responsável pela delegação da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho no Nepal, descreveu a situação como "extrema". "É muito claro para nós que existem necessidades muito urgentes", afirmou Fisher, acrescentando que "é preciso muito, muito mais" apoio. O responsável avisou ainda que o número de mortos poderá continuar a aumentar à medida que as equipas de resgate acedem a áreas anteriormente inacessíveis.
U.al-Rumaihi--BT