Bahrain Telegraph - Lula, o ícone da esquerda que desafiou o tempo e a extrema direita

Lula, o ícone da esquerda que desafiou o tempo e a extrema direita
Lula, o ícone da esquerda que desafiou o tempo e a extrema direita / foto: © AFP

Lula, o ícone da esquerda que desafiou o tempo e a extrema direita

"Tudo o que me aconteceu na vida foi um milagre", diz Lula. Ao conquistar um quarto mandato para presidir o Brasil, contra a direita bolsonarista e o desgaste provocado pelos anos, o emblemático líder de esquerda entra ainda mais para a história.

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Durante uma campanha exaustiva, o cansaço às vezes ficava evidente em seu rosto e em sua voz, mais rouca do que nunca neste domingo (25) de triunfo.

O chapéu Panamá que adotou após um câncer de pele, os cabelos grisalhos e ralos e a barba embranquecida lembram a passagem dos anos.

Na terça-feira, completará 81 anos. No entanto, segundo afirmou nos últimos meses, sente-se em melhor forma do que nunca.

Com vídeos que o mostram em plena rotina de exercícios, exibiu uma vitalidade inegável.

E soube se reinventar. Ele, que durante muito tempo desprezou o celular, acabou se autodenominando "o rei da selfie".

Foi preciso ficar, contra todas as previsões, atrás do candidato conservador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno para que adotasse essa prática.

Foi uma maneira de admitir que, diante de uma direita que domina as redes sociais, havia chegado a hora de mudar.

O gesto também evidenciou o quanto estava defasado em relação a um país amplamente conectado e profundamente polarizado.

- "Trajetória épica" -

Durante a campanha, ele pareceu, a princípio, focado em exaltar sua própria biografia, sua "trajetória épica", nas palavras de seu ex-ministro Fernando Haddad (PT).

Nasceu em 27 de outubro de 1945, no berço de uma família pobre de lavradores de Caetés, Pernambuco. Para fugir da fome, se instalou com a família no Guarujá, no litoral de São Paulo.

Operário desde os 14 anos - perdeu um dedo na fábrica -, tornou-se líder sindical e liderou grandes greves no final da década de 1970, em plena ditadura militar.

Depois de três candidaturas infrutíferas, o ex-metalúrgico entrou em 2003 no Palácio do Planalto, em Brasília.

Reeleito em 2006, deixou o poder com popularidade recorde, impulsionada por programas sociais financiados graças ao boom das commodities.

No cenário internacional, forjou uma aura de líder do Sul Global e defensor do multilateralismo.

No entanto, suas afinidades com governos autoritários de esquerda, como o de Hugo Chávez na Venezuela, renderam-lhe críticas.

- 580 dias na prisão -

Para além de sua biografia, Lula também é acompanhado pelo balanço de seus dois primeiros mandatos. Como se reconhecesse isso, o pai de cinco filhos declarou recentemente que não quer "ser mais o presidente só do Bolsa Família".

Esse programa de assistência social voltado para as famílias mais pobres continua sendo seu legado mais significativo, mas já tem mais de 20 anos.

Em 2022, Lula derrotou, por uma margem estreita, o então presidente Jair Bolsonaro que, posteriormente, foi condenado à prisão por tentar um golpe de Estado contra seu sucessor.

Lula é reconhecido por ter retomado as políticas sociais que haviam sido enfraquecidas por Bolsonaro e por ter contido a destruição da Amazônia.

Seu terceiro mandato, no entanto, tem ares de "remake", com poucas ideias novas.

Carrega, ainda, como um fardo, uma condenação por corrupção que o levou a passar 580 dias na prisão entre 2018 e 2019. Ela foi anulada devido a falhas processuais e à parcialidade do então juiz Sérgio Moro, mas a direita continua entoando o grito "Lula ladrão".

- Longevidade excepcional -

Por que o líder da esquerda se arrisca a travar mais uma batalha?

Lula, que evitou promover um herdeiro político, sustenta, às vésperas do segundo turno, que quer salvar a democracia diante da extrema direita.

Durante a campanha, esteve quase sempre acompanhado de sua terceira esposa, Rosângela da Silva, a "Janja", de 60 anos.

Mas essa socióloga feminista recebeu críticas por sua onipresença após um primeiro turno que deixou uma sensação de ressaca.

Depois de escapar por pouco de uma saída pela porta dos fundos, seu lugar na história está mais garantido do que nunca: nenhum outro presidente eleito democraticamente governou por tanto tempo o Brasil.

Ele disse isso com tranquila segurança em 2024, diante de veículos de imprensa estrangeiros, entre eles a AFP, em uma sala iluminada de sua residência no Palácio da Alvorada: "Não tem ninguém nesse país que tenha mais experiência de presidente do que eu".

I.al-Buarki--BT