Bahrain Telegraph - Avanço do HIV é um perigo real devido à queda do financiamento a seu combate

Avanço do HIV é um perigo real devido à queda do financiamento a seu combate
Avanço do HIV é um perigo real devido à queda do financiamento a seu combate / foto: © GETTY IMAGES NORTH AMERICA/AFP/Arquivos

Avanço do HIV é um perigo real devido à queda do financiamento a seu combate

A ciência nunca foi tão sólida, mas o apoio político atravessa seu pior momento: especialistas em aids alertaram nesta segunda-feira (27) que a luta contra o HIV está em sério perigo, depois que seu financiamento caiu 20% no ano passado.

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Começou no Rio de Janeiro a maior conferência internacional sobre aids, a primeira desde que os Estados Unidos cortaram drasticamente a ajuda externa após o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Países europeus como França, Alemanha e Reino Unido seguiram o mesmo caminho.

"Nunca antes o financiamento dos doadores havia caído tanto e tão rápido, e os mais vulneráveis já estão pagando o preço", afirmou Beatriz Grinsztejn, presidente da Sociedade Internacional de Aids (IAS), que advertiu para um "perigo real" no combate ao HIV, o vírus responsável pela aids.

Os avanços científicos transformaram a infecção por HIV, que em outra época era sinônimo de morte, em um vírus manejável para milhões de pessoas.

"O fim da aids já não está limitado pela ciência. Os cientistas fizeram sua parte. Agora o que limita é a desigualdade. A ciência cumpriu seu papel, agora a política precisa cumprir o seu", declarou a diretora-executiva do programa da ONU sobre aids (Unaids), Winnie Byanyima.

Byanyima ressaltou que o mundo vive "um dos momentos mais empolgantes na história da ciência do HIV", com medicamentos preventivos de eficácia quase comparável à de uma vacina. No entanto, milhões de pessoas ainda não têm acesso a eles.

"Quando a prevenção desaparece, aumentam as infecções. Quando o tratamento é interrompido, as pessoas morrem", alertou Byanyima.

O número de novos casos de HIV e de mortes relacionadas à aids caiu, em 2025, ao seu nível mais baixo em mais de 30 anos. Mas, em 21 países, as novas infecções aumentaram.

- Países em desenvolvimento na "linha de frente" -

O financiamento mundial para a luta contra o HIV em países de baixa e média renda caiu 18% no ano passado, segundo um relatório da Unaids divulgado na conferência no Rio.

Desde 2011, a contribuição dos países europeus diminuiu 58%, de acordo com o relatório. Os Estados Unidos, apesar dos cortes de Trump, continuam respondendo por 74% do financiamento governamental dos doadores.

Os países com as taxas mais altas de HIV, muitos deles na África Subsaariana, estão "assumindo a linha de frente", disse à AFP a diretora-executiva adjunta da Unaids, Angeli Achrekar. O financiamento doméstico já representa 60% do total.

Ainda assim, esses números continuam sendo "uma gota no oceano" em comparação com o que é necessário, disse Byanyima à AFP em junho. Muitos países africanos de baixa renda dependem da ajuda internacional para financiar até 90% de sua resposta ao HIV.

Para os especialistas, ainda é cedo para medir plenamente as consequências desses cortes.

- Novos medicamentos -

A ONU pretende pôr fim à aids como ameaça à saúde pública até 2030. Um dos objetivos é que 20 milhões de pessoas tenham acesso aos antirretrovirais que previnem a propagação do HIV. Quase metade das crianças que vivem com o vírus não recebeu esses medicamentos no ano passado.

Achrekar pediu às farmacêuticas que tornem "acessíveis a todos" os novos medicamentos, considerados revolucionários.

Antes da conferência, a americana Merck anunciou planos para permitir que fabricantes da África e da Índia produzam versões genéricas mais baratas de seu comprimido antirretroviral mensal, o alimatravir, ainda não aprovado.

A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) pediu, além disso, à farmacêutica Gilead que disponibilize seu preventivo lenacapavir a mais países, já que ele requer apenas uma injeção a cada seis meses.

Os países onde foram realizados os ensaios clínicos do medicamento, entre eles Brasil, Argentina, México e Peru, estão excluídos dos acordos atuais que permitem a venda de versões genéricas, apontou a MSF.

O lenacapavir pode ser produzido por 40 dólares (233 reais, na cotação atual) por pessoa ao ano, mas nos Estados Unidos custa até 28 mil dólares (163 mil reais) por paciente por ano, segundo a organização.

Y.al-Hamad--BT